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O FRIO E O TETRAPLÉGICO

O FRIO E O TETRAPLÉGICO

O cadeirante no inverno - O frio e o tetraplégico!

Veja neste artigo:

As consequencias, os cuidados, as soluções e as causas do frio nos cadeirantes e em especial nos cadeirantes tetraplégicos.

Um ser humano sem nenhuma disfunção, anomalia ou deficiência é capaz de manter uma temperatura corporal constante de aproximadamente 35.8º C. Quando faz frio, os músculos lisos dos capilares sanguíneos da pele se contraem, diminuindo a perda de calor. Se isso não bastar, contrações involuntárias dos músculos esqueléticos (calafrios) produzirão calor.

Já com os tetraplégicos isso não acontece, os tetraplégicos tem dificuldades no controle da temperatura corporal, pois, os mecanismos de termorregulação no tetraplégico com lesão medular são defeituosos pela interrupção de impulsos ao centro termorregulador no hipotálamo, paralisia muscular e vasodilatação não controlada, resultando em perda de calor e de termogênese pela incapacidade de produzir tremores.


As causas do frio no tetraplégico
Porque os cadeirantes, em especial os tetraplégicos, sentem tanto frio?

  • 1) A primeira grande questão é o fato de que o cadeirante fica “parado” ou tem baixa movimentação, com isso, há um enorme comprometimento na velocidade da circulação sanguínea, e aí consequentemente a pessoa em questão fica com pouca produção de calor.
  • 2) A segunda questão é que as pessoas com lesão medular (cadeirantes) não tem termorregulação corpórea; no calor os poros não se abrem para transpirar e dissipar calor, e no frio os poros não se fecham para manter o calor interno.
  • 3) A terceira questão é que geralmente os cadeirantes tem pouca massa muscular e isso permite que a temperatura externa não tenha barreiras para transpor o corpo e isso faz com que o frio chegue com facilidade no sistema circulatório, assim, a temperatura do sangue baixa mais do que o normal. Ou seja, o acesso do frio ao sangue é muito mais fácil e rápido.


Quais as consequências do frio para um tetraplégico?

  • 1) A falta da sensação imediata do frio e da percepção da queda de temperatura do corpo, somado a ausência da termorregulação biológica do corpo, o cadeirante pode ter hipotermia com bastante facilidade.
  • 2) O frio traz extremo desconforto para os tetraplégicos, dores de cabeça, dores nos seios da face, dores em toda musculatura onde se tem sensibilidade (principalmente costas e pescoço), alta sensibilidade fria nas orelhas e nariz, ressecamento em excesso da pele e rigidez dos membros das extremidades (pés, pernas, mãos, punho e antebraços).
  • 3) Não menos importante que o corpo, devemos destacar a grande perda de vida social e o ônus em relação à saúde mental. O inverno pode ser um momento que traz bastante sofrimento mental para a pessoa com deficiência. Afinal, ela sente que sua deficiência física impede o autocuidado adequado e a torna mais dependente de outras pessoas. Entenda: Vestir determinadas roupas de inverno pode ser uma tarefa mais complicada, pois elas exigem mais força e firmeza. Então, os déficits motores se tornam mais limitantes, a mobilidade na cadeira de rodas fica mais limitada e comprometida. Além disso, a redução da incidência dos raios do sol e a temperatura mais baixa afetam naturalmente o humor de qualquer pessoa. Isso pode comprometer momentaneamente a resiliência do usuário de cadeira de rodas. O frio causa desinteresse social no cadeirante, ele prefere ficar recluso, abrir mão dos benefícios da convivência e das atividades sociais para evitar os transtornos e o desconforto que o frio traz para seu corpo.


Quais os cuidados que o cadeirante precisa ter no inverno?

  • 1) De modo geral, quando está frio e mesmo que o tetraplégico não esteja sentindo o frio, ele deve usar roupas quentes e confortáveis, pois se não fizer, em questão de poucas horas a temperatura corporal vai cair, e para recuperar não é tarefa fácil. Peças apertadas, que restringem o fluxo sanguíneo, como meias, cintos e sapatos desconfortáveis, devem ser evitadas. Fazer massagens nas pernas e nos pés é um ótimo recurso. Os músculos do corpo auxiliam na contração dos vasos sanguíneos, mantendo o fluxo de sangue sempre constante e em uma única direção. Todavia, em pessoas que usam cadeira de rodas, essa contração é comprometida, então fazer massagens favorecem a circulação. Movimentos de alongamento e exercícios, mesmo que sejam passivos (movimentação em geral dos membros), aumentam a produção de calor.
  • 2) Manter uma alimentação adequada é um dos cuidados com o cadeirante que precisam ser implementados no dia a dia, especialmente durante as épocas mais frias. Pessoas com deficiências físicas têm tendência à redução do gasto calórico, ou seja, a ganhar peso. Portanto, a dieta deve focar a redução de peso e o fortalecimento da musculatura: peixes, carnes brancas, ovos, frutas, folhas, vegetais e laticínios. Outro ponto importante é tomar cuidado com o sal, o excesso de sal é um dos grandes responsáveis pela retenção de líquidos e pelos inchaços. Por isso, manter-se hidratado é fundamental. O ideal é beber entre dois e três litros de água por dia. Esse hábito facilita a eliminação de toxinas e a melhora significativamente a circulação. A água também é determinante na densidade do sangue e influencia o controle da pressão. Além disso, previne cãibras, melhora o funcionamento do intestino, transporta os nutrientes pelo corpo, aumenta a resistência física e é essencial para a hidratação da pele.
  • 3) Ao invés de cremes hidratantes, dê preferência aos óleos hidratantes após o banho e sempre que tiver necessidade de hidratar a pele. Procure aquecer o banheiro antes do cadeirante entrar para o banho. Aliás o banho é um dos piores momentos para o cadeirante, pois geralmente a água quentinha do chuveiro fica concentrada e caindo sobre a cabeça e tronco do cadeirante, deixando as pernas de fora congelando. O uso de aquecedores (elétricos ou à óleo) para os ambientes, lençóis térmicos e vestimentas denominadas segunda pele são essenciais. Além de todas as medidas de proteção térmica e climatização, cuide também da saúde mental do cadeirante, se reinvente, faça do inverno como se fosse uma pandemia, traga mais atividades para dentro de casa, mais reuniões socias e use e abuse da criatividade para o entretenimento e lazer do cadeirante. E o MAIS IMPORTANTE DE TUDO: ENTENDA A SITUAÇÃO DO CADEIRANTE, que certamente é muito diferente da sua, enquanto você está de camiseta, ele já está de blusa e touca, e não questione, não duvide, não tire o sarro… ENTENDA, porque realmente é diferente. NÃO é frescura ele não querer sair por conta do frio, é realmente sofredor.

2 comentários

Marlei Cássio da Silva Publicado em9:27 am - Maio 11, 2023

Ronaldo Denardo, seu texto é muito bom e esclarecedor. Sou tetraplégico desde 2008, e sofro demais com o frio. Sua escrita também é ótima para cuidadores, familiares e amigos do tetraplégico (e também para a população geral). Parabéns, Denardo.

Marcelo Cunha Publicado em9:56 pm - Maio 13, 2023

Show de bola cada uma das suas informações compartilhadas. Viajei no tempo durante a leitura, revivendo diversos momentos dos meus 32 de lesão. Fui um pouco antes, pois era esportista e curtia o calor; suar; estar em movimento. Mas, mesmo antes o frio já incomodava rsrs… Espero que muitos leiam, além de familiares e amigos, entendendo um pouco das nossas complexidades.
Parabéns fera!

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